domingo, 22 de novembro de 2009

Venha, Armagedom! Por favor!

Impossível deixar o blog de lado depois de assistir a 2012. Claro que eu já esperava uma produção supercomercial, com estadunidenses se dando bem no fim da história e muitas cenas de ação. Se fosse apenas isso, talvez fosse até legalzinho. Mas não. Conseguiram chafurdar fundo na lama de Hollywood e explorar inúmeros clichês do gênero aventura. Veja alguns:
  • Toda vez que começa um momento de tensão, especialmente envolvendo o presidente dos EUA, toca uma daquelas músicas eloquentes cheias de tambores militares. Neste caso, o recurso foi usado à exaustão, deu a impressão de que a trilha sonora foi feita por alguma infantaria;
  • O protagonista é um ex-escritor fracassado que tenta reconquistar sua mulher de olhos claros e cabelo bom, liso e comprido, parecida com qualquer personagem de série gringa do início dos anos 90;
  • Já o presidente norte-americano é... Negro! Poxa, eles já elegeram um negro (na verdade, mulato); podiam muito bem agora colocar uma mulher como líder nacional na ficção - ou um(a) gay. Fica a dica: cor-de-rosa é o novo preto;
  • Personagens malucos são mesmo malucos; os filhos da mãe são mesmo filhos da mãe; os bonzinhos são mesmo bonzinhos; os que parecem que vão se tornar mais legais vão mesmo se tornar mais legais; o casal que parece estar se formando vai acabar juntinho. Nem crescimento de grama é tão previsível;
  • Não há limites para a computação gráfica. Praticamente tudo é fake. Alguém precisava ter avisado que ainda é possível confeccionar objetos de cena que fazem a diferença para quem vê o resultado final. Quer dizer, não é videogame, é cinema!
Pelo menos não senti sono nem vontade de ir embora. O climinha meio 24H, a agilidade da edição e as cenas catastróficas sustentam bem as cerca de duas horas e meia de filme. Agora, nem de longe se explorou a diversidade cultural num cenário ultraglobalizado, como a proposta apocalíptica sugere com o lance da união dos povos, por exemplo. E para quem se impressionou com as imagens do Cristo Redentor caindo aos pedaços, relaxa. É apenas um trecho rápido pra fazer merchandising da Globo News.

Aliás, não faltaram merchandisings em 2012. O que é engraçado, pois não sinto a menor vontade de comprar notebook da Vaio ou cereais da Kellogg's só porque eles estiveram presentes no fim do mundo. Nem parecem marcas de maior respeito por isso. Com tantos lugares-comuns, lembrei do Morrissey cantando Everyday Is Like Sunday: "Todo dia parece domingo / (...) / Venha, Armagedom! / Venha, Armagedom, venha!".


terça-feira, 17 de novembro de 2009

Hello Goodbye

Pessoas, sinto muito, mas não dá mais. Estou cercado de afazeres por todos os lados e, desde o começo, quis manter este espaço com alguma regularidade. Então, por enquanto, até breve. And don't you forget it.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Perdão e compensação

Mil desculpas. Estou num ritmo muito mais intenso de trabalho com o fim do semestre na faculdade e meu retorno das férias à redação do Meio & Mensagem. Ainda por cima, como me mudei para a Mooca, estou sem internet em casa. Por isso, publico aqui entrevista que fiz com Leon Cakoff, fundador e coordenador da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo para o jornal. Ela não pôde sair no M&M porque, na verdade já havia sido feito um trabalho semelhante em 2005, e esse tipo de pauta não pode se repetir. Segue abaixo.

Meio & Mensagem – Após o surgimento das videolocadoras, a disseminação da pirataria e, mais recentemente, do download de filmes, a indústria cinematográfica vem tentando se manter estável e reconquistar público com a tecnologia 3D. O senhor acredita que essa é mesmo uma opção viável para sustentar economicamente o cinema, como nós o conhecemos?
Leon Cakoff – Tudo depende, como sempre, de vários fatores. Cada filme é uma história. Não é uma fórmula que vai dar certo pra todos. Não é porque o filme é em 3D que vai fazer sucesso. Tem uns que nem estão fazendo, por exemplo. Isso não vai salvar o cinema. O que vai salvar é a reconquista do hábito de se ir ao cinema. E para isso têm muitas alianças a serem feitas por parte do poder público e tem que acabar com meia-entrada para estudante, que é um absurdo, isso encarece o preço do ingresso de forma geral. É um vício brasileiro de fazer caridade com lei. Quem tem de dar coisa para o cidadão é o Estado. Não a iniciativa privada. Que cinema é diversão, não tenho dúvida; mas, pra mim, é um prazer de aprendizado sempre. Mas 3D é progresso. Bergman, por exemplo, talvez se negasse a fazer um filme em 3D, mas na sua juventude ele não se negou a fazer filmes considerados altamente eróticos, num tempo em que a Suécia era sinônimo de exportação da pornografia – então primitiva –, que era uma indústria muito fértil. E foi beneficiado por essa onda.

M&M – Alguns especialistas criticam a teledramaturgia brasileira, dizendo que as novelas e séries do Brasil evitam demais fazer merchandising e, quando fazem, é com pouca naturalidade. Como o senhor avalia o merchandising no cinema brasileiro?
Cakoff – Em geral, é mal feito, mas por culpa dos publicitários, que são muito exigentes. Aqui a gente sofre os males do imediatismo, é um país de tradição extrativista. Ninguém planta pro futuro, pra colher sutilmente. Publicidade deveria se prestar a isso. Mas, você vê, com a Lei Rouanet é parecido, quer dizer, as empresas têm 100% de isenção para investir em atividades culturais como a Mostra, e ainda assim estão preocupadas sem saber que vantagens elas vão tirar a mais! Temos que tourear esses imediatismos. Voltando à origem da tua pergunta: merchandising em filme é mal feito sim, mas por culpa dos publicitários mesmo, que exigem demais e não trabalham a coisa a longo prazo, na sutileza.

M&M – O senhor lida constantemente com filmes das mais variadas origens. Avaliando tantas obras diferentes, que país lhe parece mais promissor quanto à produção cinematográfica?
Cakoff – Muitos, felizmente. O Brasil, inclusive. Hoje têm destaque as produções da Alemanha, que faz muita coprodução em várias partes do mundo; do Brasil, que quer trabalhar essa vocação, tem assinado acordos de copatrocínio, espero que funcione, que não fiquem só no papel; do Canadá, que tem apresentado uma cinematografia muito variada, muito rica; da França, como sempre, que tem um trabalho muito positivo também pela diversidade e pelas coproduções; da Suécia, que a gente está homenageando este ano na Mostra, porque eles têm uma grande experiência em filmes para crianças e adolescentes, que são muito importantes para formar novas platéias.

M&M – E a hegemonia de Hollywood? Parece de alguma forma ameaçada, inclusive comercialmente?
Cakoff – A hegemonia de Hollywood nunca foi ameaçada. Eu acho que eles colhem o que plantaram com muita sabedoria desde o nascimento do cinema: uma indústria sólida, com um projeto de distribuição internacional, com produção que contrata muitos talentos no mundo todo e cuidando da exibição sempre. Isso se espalha no mundo por méritos. Tanto é que quando o cinema norte-americano, entre os anos 60 e 80, esteve em crise criativa, a hegemonia deles continuou firme e forte distribuindo filmes europeus. Graças a isso que ganharam projeção internacional autores franceses, italianos, belgas, alemães... Foi tudo para alimentar essa cadeia de distribuição que os EUA já tinham.

M&M – Como o senhor avalia o desempenho do cinema brasileiro em termos comerciais?
Cakoff – O cinema brasileiro vai muito bem, obrigado, até chegar à sala de cinema. Todos os segmentos da indústria do cinema se cobrem. O único que sai no prejuízo é o exibidor. Se o filme vai mal, o prejuízo é só da sala, que tem despesas fixas de funcionários, aluguel, luz, água, material de limpeza, entre outras. E o prejuízo é só do exibidor, é injusto isso. Tem uma coisa perversa aí. Começando pela obrigatoriedade de exibir filme brasileiro; não tem decreto que obrigue uma pessoa a ir ao cinema, ela vai porque quer. Então não adianta a lei. Tanto é que a grande maioria dos filmes brasileiros cuja vocação seria exibição em televisão acaba indo para o cinema e isso prejudica o cinema de forma geral. Tem muita coisa aí pra ser revista. Tem um trabalho muito raivoso e perverso que foi feito no governo Collor – se é a gente pode chamar aquilo de governo – que deixou muitas sequelas que até hoje a gente apanha por elas.

M&M – O que pensa da indicação de Salve Geral para representar o Brasil na candidatura ao Oscar de melhor filme estrangeiro?
Cakoff – O Oscar de Melhor Filme Estrangeiro parece prêmio de consolação, né? (Risos). É ridículo o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro; nem eles dão importância a isso lá! Tem resenhas de cobertura de Oscar na imprensa norte-americana em que você nem vê citado o filme estrangeiro que ganhou. Acho muito provinciano pensar em quem vai ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Acho muito mais valioso ganhar outro prêmio internacional do que ganhar o Oscar.

M&M – O senhor, em 2001, foi um dos sócio-fundadores do Unibanco Arteplex, que trouxe o cinema de arte para o contexto comercial dos shopping centers e de outras áreas de comércio intensificado, como a região da Avenida Paulista. A que atribui o sucesso da empreitada?
Cakoff – Ao fato de ter oferecido ao mercado um diferencial. Foi uma iniciativa, na verdade, de dois grupos de sócios: o grupo da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o grupo do Circuito Espaço de Cinema. Esses dois grupos se juntaram pra lançar essa ideia nova no mercado, que se espalhou um pouco pelo país também. O que não deixa de ser uma extensão da nossa filosofia de trabalho, que já anda com as próprias pernas na área de distribuição de filmes, lançamentos de livros, de DVDs, parcerias diversas com anunciantes. No cinema também temos parceiros – graças a eles que a gente pôde pensar grande, que foi o Unibanco, agora Itaú-Unibanco. E porque por trás do projeto havia cinéfilos, que entendiam do que a gente falava: o Pedro Moreira Salles, o Walter Salles, e a família toda. Aí é outra coisa, né? E com a fusão com o Itaú esse diálogo continua vivo. Trabalhamos o lado virtuoso do cinema e isso deixa rastros, faz cabeças, não é um trabalho em vão.

M&M – Mesmo avaliando inúmeros trabalhos, são sempre muitos filmes que entram no circuito da Mostra. Este ano, a média prevista é de 420 filmes, que serão exibidos em duas semanas. No meio de tantas obras, sobra espaço para os patrocinadores?
Renata de Alemida, esposa de Cakoff e diretora da Mostra, interrompe – Quanto mais, melhor! Eles aparecem antes de todos os filmes! Se tiver 500, melhor para o patrocinador!
Cakoff – Já está respondido. (Sorri). A solidariedade internacional com a mostra é muito grande, o carinho que as pessoas têm pela Mostra. Isso é uma coisa construída com o tempo. Nosso trabalho é traçar um panorama do que está acontecendo no mundo, no Brasil inclusive. Claro que você seleciona, mas tem que abranger o máximo possível de opções, ainda mais numa cidade como São Paulo, em que há tantas tribos. E não é questão de gosto, é o perfil da cidade. Você tem gente do mundo inteiro, tem tolerância, aqui as diferenças se diluem, se anulam. Essa é uma das grandes virtudes do Brasil em geral e de são Paulo em especial.

M&M – Este ano a Mostra chegou à 33ª edição. Como o senhor avalia o evento após todos esses anos?
Cakoff – Não mudou nada. Só cresceu, porque aí temos a credibilidade internacional, que alavanca isso. E, claro, a gente sempre dependeu de patrocínio, mas o evento está cada vez mais caro. Eu acho que as agências deveriam olhar com mais carinho para a Mostra.

M&M – Em que sentido?
Cakoff – No sentido de que é um evento querido da cidade, muito querido do País, e a agência deve deixar de ter preguiça de oferecer o patrocínio para os seus clientes. De novo a questão extrativista no Brasil: têm várias marcas multinacionais que ajudam três ou quatro grandes festivas na Europa e nos EUA e aqui elas nem respondem às nossas cartas. Eu acho que a classe publicitária deveria reagir. O recado está dado. (Risos).